segunda-feira, 4 de agosto de 2008

17 cada um com seus pobrema

video

As palavras em destaque estão explicadas após a transcrição.




Transcrição:



E aí, pessoal. Tudo bom?

Eu ontem à noite fui ao teatro assistir uma peça chamada "Cada Um Com Seus Pobrema”, que é uma comédia estrelada pelo Marcelo Médici, um ator aqui de São Paulo.

Nesta peça, o Marcelo Médici representa 6* personagens[1] do dia-a-dia, que na verdade são 6 arquétipos do cotidiano da vida das pessoas. Só que eles[1] são representados de uma maneira bastante caricaturesca. A caricatura destes personagens[1] é representada de uma maneira bastante forte. E a platéia se identifica muito com o texto. Então a peça é muito engraçada

Foi a segunda que eu fui assistir. Eu me diverti muito, eu quase morri de dar risada[2]. E todo mundo que estava na platéia também se identificou com o texto, que é desenvolvido pelo próprio ator, Marcelo Médici, que é um ator fenomenal. Ele tem um timing muito bom, ele tem uma técnica vocal excelente. Ele é um grande ator que faz as pessoas rirem muito.

E...este tipo de comédia é um tipo de comédia bastante difundido no Brasil hoje em dia. Ele ganhou popularidade há coisa de[3] oito anos atrás, eu acredito. Primeiramente em cidades como Rio, São Paulo, em que alguns grupos de teatro surgiram desenvolvendo este humor, parecido um pouco com o stand-up comedy americano.

Só que este tipo de humor à brasileira[4] ele[5] apresenta algumas personagens fictícias[1], que contam uma história pra platéia, uma história baseada na vida real. Só que, evidentemente, como eu disse antes, de uma forma caricaturesca. Então este tipo de comédia ganhou popularidade muito rapidamente aqui no Brasil.

E....no nome, no título “Cada Um Com Seus Pobrema”, vocês podem observar que a palavra ‘pobrema’ é uma forma estigmatizada da palavra ‘problema’. Esta palavra ‘pobrema’, esta forma ‘pobrema’, é normalmente associada a pessoas de baixa escolaridade[6], de baixo grau de instrução[7].

E...além de estar pronunciada desta forma, ela está usada no singular. E o correto, segundo a gramática, deveria ser no plural, porque o pronome ‘seus’ está no plural. O substantivo ‘problema’ deveria estar no plural, ‘problemas’. Mas ele se encontra no singular e ele se encontra pronunciado de uma maneira estigmatizada, ‘pobrema’.

Seus problemas [certo - plural + plural]
Seus pobrema [errado - plural + singular]

Isto é usado de uma maneira proposital...é...quando a gente quer...é...empregar humor à[8] frase. Isto é usado pra efeito de humor, como é o caso do título da peça “Cada Um Com Seus Pobrema”. O título está errado propositalmente, pra poder empregar humor, pra efeito de humor.

A frase “cada um com seus problemas” ela[5] é geralmente usada quando a gente quer dizer que a gente não se importa com o problema de outra pessoa que nos afeta.

Então por exemplo, suponhamos[9] que eu [10] a um restaurante com uma amiga minha e que neste restaurante o garçom trata[10] a gente de uma maneira desrespeitosa, ou de uma maneira grosseira[11]. A minha amiga fica brava[12]. Mas eu tento acalmá-la e tento explicar pra ela que o garçom talvez esteja[10] de mau humor, o garçom talvez esteja num dia ruim, o garçom talvez esteja com algum problema, o que justificaria o fato dele[13] nos tratar mal.

Só que a minha amiga não aceita essa justificativa. Ela continua brava e ela diz: “Cada um com seus problemas!”

Isso quer dizer: “Eu não me importo com o problema dele. Cada um com os seus problemas. Eu tenho o meu problema, ele tem o problema dele. Isso não justifica ele me tratar grosseiramente."

Daí[14] o título da peça. Na peça, as 6 personagens representadas[1] pelo Marcelo Médici elas[5] têm um problema. Elas ‘tão contando uma história em que elas têm um problema. Então, o por isso da peça se chamar “Cada Um Com Seus Pobrema”. ‘Tá ok?

Então era isso que eu queria contar pra vocês hoje. E até o próximo vídeo então, pessoal.

Tchau-tchau.

*Na verdade, a peça apresenta 8 personagens (e não 6, como o Eduardo disse)





De olho no vocabulário!


1. personagem

A palavra ‘personagem’ pode ser tanto feminina quanto masculina. As duas formas estão corretas no português. Note como o Eduardo trata a palavra tanto no masculino quanto no feminino nas frases abaixo:

> Eles são representados. (masculino)
> A caricatura destes personagens. (masculino)
> Este tipo de humor apresenta algumas personagens fictícias. (feminino)
> As 6 personagens representadas pelo Marcelo Médici têm um problema. (feminino).




2. Eu quase morri de dar risada = eu ri muito.

Estas expressões significam ‘rir muito’:

> morrer de dar risada
> quase morrer de dar risada
> morrer de rir
> quase morrer de rir




3. coisa de = mais ou menos; aproximadamente; algo em torno de

A expressão ‘coisa de’ é usada para se referir de maneira vaga a quantidades, como por exemplo de tempo ou dinheiro:

> Isso custa muito dinheiro, coisa de bilhões de dólares.




4. à brasileira

A letra ‘a’ usada com o acento grave (à) indica a fusão da preposição a com o artigo definido feminino a. Neste caso, ‘à’ significa “ao estilo de”, “à maneira de”. Por exemplo:

> Eliana calçava um sapato à Luis XV (15). [=Eliana calçava um sapato à moda de Luis XV]
> Fizemos um churrasco à gaúcha. [=Fizemos um churrasco à maneira gaúcha]




5. Este tipo de humor à brasileira ele apresenta algumas personagens fictícias.

Note como o pronome 'ele' não é necessário para a compreensão da frase:

> Este tipo de humor à brasileira ___ apresenta algumas personagens fictícias.

O uso de pronome seguido do sujeito para se referir ao próprio sujeito á característico do português falado. No português escrito este uso não é necessário. Veja outros exemplos:

> A frase “cada um com seus problemas” ela é geralmente usada quando a gente quer dizer que a gente não se importa com o problema de outra pessoa.

> As 6 personagens representadas pelo Marcelo Médici elas têm um problema.




6. escolaridade = aprendizado na escola; conhecimento adquirido na escola


7. instrução = cultura; erudição; escolaridade; educação formal


8. empregar humor à frase.

A letra ‘a’ usada com o acento grave (à) indica a fusão da preposição a com o artigo definido feminino a.

Neste caso, a fusão acontece pela seguinte construção com o verbo ‘empregar’:

empregar (X) a (Y)
empregar (humor) a (a frase)

empregar humor a + a frase => empregar humor à frase.



9. suponhamos

Esta é a forma do subjuntivo do presente do verbo ‘supor’. Neste contexto, ‘suponhamos’ expressa uma ordem, algo como ‘vamos supor’ (=let’s suppose). Compare:

> Vamos supor (informal / neutro)
> Suponhamos (formal)


10.

Veja como na frase abaixo o verbo ‘ir’ está usado na primeira pessoa do singular do presente do subjuntivo, ‘eu vá’:

> Suponhamos que eu a um restaurante com uma amiga.

Neste caso, o subjuntivo indica uma suposição de uma ação que não se concretizou, de uma ação discutida no plano da hipótese, da suposição. Compare:

Eu vou (presente do indicativo)
Eu (presente do subjuntivo)


Note que, logo em seguida, o Eduardo usa o verbo ‘tratar’ na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, ‘ele trata’:

> Suponhamos que eu a um restaurante com uma amiga minha e que o garçom trata a gente de uma maneira desrespeitosa.

Segundo a gramática tradicional, o Eduardo deveria ter usado a forma do presente do subjuntivo, ‘ele trate’, para indicar a hipótese de uma ação não concretizada. Compare:

Ele trata (presente do indicativo)
Ele trate (presente do subjuntivo)


Mais adiante, o Eduardo volta a usar o presente do subjuntivo, desta vez com o verbo ‘estar’, na terceira pessoa do singular.

> Mas eu tento acalmar a minha amiga e tento explicar pra ela que o garçom talvez esteja de mau humor.


Aqui o subjuntivo é usado para expressar certeza, convicção (ou o contrário, incerteza, descrença) de que algo seja concreto ou real. No caso do Eduardo, ele suspeita (mas não tem certeza) que o garçom esteja de mau humor, o que explicaria seu tratamento ruim.



11. grosseiro = indelicado, agressivo, insolente, ofensivo, descortês.


12. bravo (informal) = furioso, enfuriado, enraivecido, irado, aborrecido


13. dele = de + ele

O fato de + ele nos tratar mal => o fato dele nos tratar mal



14. daí = hence



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